Dia desses acordei desconfortável. Um desespero que não sei
explicar contando. As lágrimas pareciam que queriam sair vivas dos meus olhos. Uma
vontade de não existir que eu nem sei contar. Não sei o que era. Talvez as
circunstâncias, ou eu fingindo ser auto-suficiente, duro, e perfeitamente
normal á pessoas que, nem sei por que, tendo agradá-las. Sentia nojo de tudo;
de mim, do meu quarto, das coisas que tocava, do que olhava, a música no
visinho. Odiava até a vontade de me odiar. As coisas que amava não importavam
naquele momento. Só tinha vontade de me desprezar e não importava o que me
vinha consolar. Odiava até o auto-consolo.
E as lágrimas não cessaram, muito menos evitaram de descer. E
pareciam rios. Inundaram a casa mas eu não me afogava. Ah que vontade louca de
me afogar. Mas odiava até a vontade de morrer.
Levantei. Sozinho e nada pra fazer. Daí a mente se enchendo
de dúvidas. E as dúvidas apertando o coração e não pensava mais em mim, mas
quantas dúvidas haveria de existir a te que eu morresse de desprezo.
O que seria então esse desconforto, esse desespero, essa
malícia de querer não existir e desejando que nem mesmo existisse para que não
pensasse? Qual o motivo de ver o que passa na TV se tudo era apenas vaidade? Pessoas
sendo visivelmente maltratadas. Mas elas foram ensinadas a serem cegas, e mesmo
se houvesse milagre de ver, não acreditariam no que veriam. Via pessoas
iludindo e se iludindo, humanos fingirem acreditarem em Deus, desprezando seus
privilégios divinos por mixarias de riquezas – ganância, egoísmo e falsidade. Ladrões
do século XXI, armados com seus argumentos até os dentes, rodeados de
protetores de colarinho dizendo serem cumpridores da lei. Amantes do dinheiro
pisando na cabeça dos que sobrevivem com dinheiro. Uma confusão; não sei quem é
ladrão; se é o político ou o pobre lascado que rouba por terem roubado seus
direitos. É uma confusão. E o barraco tá armado. Sinto a nossa degradação. Sinto
que não somos mais humanos. Não temos mais bons sentimentos, só ganância,
vícios e desamor.
Mas pra onde todos esses maus sentimentos nos levam, meu
Deus?
Afinal, onde está Deus? Talvez Ele não exista. Talvez seja
só mais uma tentativa humana de explicar que o homem é perfeito. Deus nos
abandonou, nos largou, cansou de ver a gente se degladiando por nada, por aquilo
que acreditamos ser o eterno mas no fundo sabemos que é o que nos mata.
Ou Deus existe sim... talvez essa seja uma era de Ele
escolher somente os verdadeiros humanos, ainda consciente, ainda saldáveis e
sãos. Mas olho para os lados e vejo somente pessoas doentes, infectadas pelo
capitalismo consumismo, canibais capazes de venderem a própria mãe, de matarem
o próprio pai. Vejo a desgraça ao meu redor, vejo homens revoltados por serem
humanos (eu sou um deles) e destroçam tudo, arrasando sua própria vida,
ignorando-a e tudo que há ao redor.
Isso, não sei por que, me corroe por dentro, alimenta o desprezo que sinto de
mim mesmo por ser um simples sujeito que não pode fazer nada e já desistiu de
lutar. Mas não adianta lutar, somos todos zumbies, com sede e fome de carne
humana, carne de criança, de gente inocente. Eu já desisti, assim como qualquer
um que exista já aceitou a morte como preço dos erros que seus líderes
cometeram. Quero, agora só desprezar a vida, essa que nem sentido mais faz. Agora
sou oco por dentro, consumido pelo consumismo, prezo marionetizado pelas cordas
de chefões que nem conheço. E nem me importa mesmo, não vai trazer nada ao
realismo.
Acho que não venço. Só venço se todo mundo lutar. Mas ninguém
acorda, ninguém tenta fazer nada e por isso vou voltar a fingir que estou
dormindo o meu sono eterno e esperar a morte vir me salvar.
Hoje eu acordei, acordei para o desespero, acordei para ver
o que sou e o que sou me faz ter medo. Hoje eu acordei, queira Deus que não me
faça voltar a dormir e sonhar sonhos impossíveis de amor, de esperança, de vida
verdadeira.
Resta-me confiar em Deus... esperar nEle e no amor que tanto
me promete.

