quinta-feira, 15 de setembro de 2011

noite

   Já era noite. Bem tarde. Um dia cansativo e muito cheio, daqueles de esquecer; a propósito, bem chato a ponto de ser um porre. Tinha na mente todo o peso do dia. Mas estávamos lá, eu e ela. Ela, sem saber, tirou todo o peso que tinha nas costas. Acabamos depois de uma linda e longa e agradável conversa. Fazer-me esquecer de qualquer coisa de ruim é especialidade dela.
   Ela sempre graciosa, carinhosa a ponto de eu quase sentir seus carinhos, suas mão me fazendo dormir, a voz suave de pluma cantando ninar. Desliguei o computador depois de dar uma última olhada em uma de suas fotos. Ela lá, inerte, olhos fixos, porém parecendo vivos como se fossem saltar sobre a tela do monitor. Por fim, levantei da cadeira com aqueles olhos cravados na minha memória. Todavia ao mesmo tempo pensava se era muito sortudo ou se foi um dos maiores erros conhecê-la em diferença com a distância que me faz doer o coração.
    Esse pensamento me fez relembrar do peso e com o peso de volta deu vontade de voltar de frente ao computador pra retirar o enfado. Porém sabia que ela não iria estar lá. Era vã a volta sem ler suas palavras, com certeza não ia ficar de novo leve. Uma foto só não bastaria.
   Com o corpo pesado caminhei me arrastando até o quarto. A cama bagunçada, só percebi depois de jogado nela. Abri os olhos; tão escuro como de olhos fechados. Senti a escuridão do quarto, parecia imenso. Voltei a fechar os olhos, daí comecei a perceber tudo ao redor e a escuridão e o silêncio facilitam isso, como se tudo fizesse parte de você.
   De olhos fechados senti mais do que sentia antes, podia ouvir grilos assoviando, o vento na mangueira lá fora, o sentia tocar as folhas como se eu fosse a própria árvore. O cheiro do quarto; poeira misturada com madeira. Liguei o som bem baixinho, somente meus ouvidos alcançavam, mas o suficientemente capaz de me desligar de ser tudo ao redor. “Angel” era o nome da música. Rapidamente e de súbito me veio a mente seu rosto monumental, fixo mas vivo como o de um quadro expressionista clareando todo o ambiente. Já havia visto isso antes em outros sonhos. Mas dessa vez era diferente, era como se ela estivesse do meu lado, presente literalmente e iluminasse todo o quarto. Abri os olhos, não era mais um simples quarto com cheiro de madeira. Era agora um campo imenso vasto de flores e cheirava aos mais belos aromas que se podia sentir. O sol nascia como se percebesse nossa presença, mas tinha percebido só a presença dela e brilhou para ela como se a contemplasse, como se mesmo adorasse e saudasse a maior das deusas. Mas ela olhava somente para mim e continuava com a canção de ninar – voz doce e suave acalma meu coração. Ah, o sol entrava por entre seus olhos. Aquele azul que nunca vou esquecer a cor viva que era, dava pra ver horizontes infinitos. Então me perdia neles, mas gostava de me perder, não queria nunca mais me reencontrar. Desejava que ela me achasse e se perdesse comigo para que ficássemos lá por toda a vida da eternidade. Não era eternidade. O sol dizia isso quando entrou pela janela. Não era mais campo, nem flores, muito menos seus olhos e o labirinto de sua pele branca, brilhante. Não era mais a deusa. Era só eu novamente, ou como sempre, eu e meu quarto com cheiro de madeira, inóspito, de dia raiado e esse dia dizia a realidade: ela longe e meu coração lá com ela. Vem e traz ele de volta pra mim...

Marcos Paulo...

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